Batman – O Cavaleiro das Trevas tem um único defeito. O público. Ao menos, o público da sessão em que eu fui conferir o filme com a Sra. Gordon, este final de semana. Na verdade, o problema é que o filme, como produto, é um blockbuster americano de verão – leia-se: cinemas abarrotados de adolescentes – e, enquanto, como filme, ele é denso e complexo. Ou seja, a platéia não combina com o filme.
E, por isso, da mesma forma que aconteceu com o último grande fenômeno nos cinemas, Tropa de Elite, a principal força motriz do filme deixou de ser compreendida. Enquanto o Capitão Nascimento virou, simplesmente, fonte de expressões como “pede para sair” e “fanfarrão” (e o público pouco se importou em entender um pouco a psicologia amarga do personagem e o contexto em que ela surge), o mesmo acontece com Batman – O Cavaleiro das Trevas e, obviamente, com seu vilão, o Coringa.
Na verdade, a culpa disso – falando exclusivamente de Batman – é de décadas e décadas de histórias em quadrinhos que colocaram o Coringa como um personagem tão ameaçador quanto engraçado. E sua faceta mais famosa do grande público – a interpretação de Jack Nicholson no filme de 1989 – somente ajuda a reforçar isso. E é justamente essa a grande vantagem de O Cavaleiro das Trevas sobre qualquer outro filme do Batman (ou, arrisco a dizer, sobre qualquer outra adaptação recente de quadrinhos): um vilão que realmente faz a platéia sentir medo.
O Coringa de Heath Ledger é um desequilibrado. Mas, diferente do Coringa de Jack Nicholson, ele é um desequilibrado perigoso e ameaçador. Nenhum centímetro nele é engraçado. Nenhuma frase, nenhuma atitude, nenhum gesto nele é engraçado. Você simplesmente não sabe o que ele irá fazer o minuto seguinte, mas tem a certeza de que alguém (um personagem, uma cidade ou talvez até mesmo você) será prejudicado, no mínimo, moralmente.
E isso se deve somente à interpretação de Heath Ledger, que simplesmente desaparece dentro do personagem. Cada detalhe usado pelo ator na construção personagem – como os movimentos que faz com a boca, sua entonação de voz, o andar curvado e o olhar ensandecido – trabalham com um único propósito: fazer a platéia sentir medo.
Afinal, somente o medo de um vilão justifica a confiança que depositamos em seu oposto: um herói. O único propósito de Batman no filme é se colocar entre a platéia e o Coringa, tornando a experiência um pouco mais suportável para quem assiste ao filme. Sim, porque heróis não fazem sentido sem possuírem vilões à altura e a relação entre Batman e Coringa, nos quadrinhos, sempre elevou essa idéia à máxima potencia.
Os dois são exatamente iguais – neuróticos e obcecados, praticamente anomalias sociais, cada um ao seu modo – mas acabam sendo lados opostos da mesma moeda. Esta idéia gira em torno de todo o roteiro do filme. Batman é um Coringa com regras, enquanto o Coringa é um Batman que age por instinto, e não racionalmente. Batman é um agente da ordem, e o Coringa é um agente do caos, mas a obsessão dos dois pelo que fazem é semelhante. No filme, esta dualidade entre os dois está em toda a obra e é sintetizado abertamente pela figura do promotor Harvey Dent – que, além de escancarar essa idéia jogando cara ou coroa durante o filme inteiro – deixa de ser o Cavaleiro Branco de Gotham após ser corrompido pela loucura do Coringa. Sabemos que o Cavaleiro das Trevas do título é o Batman (e sabemos disso somente por causa da clássica minissérie de Frank Miller), mas ele poderia muito bem ser Harvey Dent após a sua “queda” (o que o colocaria como personagem central do filme). Ou, claro, O Cavaleiro das Trevas poderia ser, também, o Coringa, que personifica todo o mal. Em suma, a Gotham City do filme é habitada por cavaleiros das trevas. A única diferença entre Batman e os outros é que ele e sua obsessão, por acaso, protegem a platéia.
Mas Batman – O Cavaleiro das Trevas não existe sem o Coringa. Em determinadas cenas com o personagem, eu, morador de São Paulo, senti o mesmo embrulho no estômago que sofri nos famigerados dias dos ataques do PCC à cidade. E isso apenas por um motivo: pela imprevisibilidade dos ataques do vilão. Um exemplo é a cena do hospital – se você não viu o filme, saberá do que estou falando. Elas mostram uma cidade totalmente (totalmente mesmo) à mercê de um criminoso, e a imprevisibilidade deste mesmo sujeito faz com que você se sinta acuado em todos os momentos – esteja do lado de lá ou de cá da tela. O Coringa não é mais um vilão, é um terrorista – e a cena em que ele tortura uma pessoa vestida de Batman e exibe isso em vídeo deixa isso claro. O Coringa de Heath Ledger consegue ser pior que o Coringa da graphic novel A Piada Mortal.
O Coringa de Heath Ledher é o vilão quintessencial dos quadrinhos. E é o vilão mais ousado politicamente falando que o cinema criou nos últimos anos.
Infelizmente, para a platéia perceber isso, é necessário um pouco de QI, coisa que anda
Mas claro que esse medo não impediu a criatura boçalizada que estava ao lado da Sra. Gordon de atender a porra do celular no meio do filme. O que deixa no ar a pergunta: se atendeu ao telefone para falar que “não pode falar porque está no cinema”, porque atendeu ao telefone? Afinal, o ato de desligar o celular meio que deixa implícito que você não pode falar naquele momento.
Pensando sobre isso, não consigo tirar a frase que o Coringa usa para se descrever em determinada cena: “eu sou como um cachorro que corre atrás dos carros, eu não saberia o que fazer se alcançasse o carro”. O grande público estava há anos – talvez desde o terceiro O Senhor dos Anéis - correndo atrás de um blockbuster com essa qualidade. Mas, agora que ele chegou, elas não sabem o que fazer com ele.
Palmas para o sujeito que atendeu o celular no meio do sério candidato a filme do ano, e que provavelmente vai descrever o filme como “bem lôco” e o Coringa como “muito lôco”. Infelizmente, hoje os filmes são feitos para este sujeito. O mundo – ou, ao menos, grande parte dele – não merece um filme como Batman – O Cavaleiro das Trevas.






